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domingo, 20 de maio de 2012

Felicidade, a pequena borboleta de asas grandes


Noite de domingo. Chove muito lá fora. Na verdade, tem chovido a semana inteira. Enquanto o frio e as gotículas precipitando das telhas invadem o meu quarto, fico a revisar alguns conteúdos para um concurso que estou prestes a fazer. Num dado momento, me assusto: os bipes do meu celular rasgam o silêncio; é uma amiga me enviando um SMS.

"WEB: Felicidade e igual a uma borboleta,quanto mais voce corre atras,mais ela foge...dai um dia voce se distrai e ela pousa em seu ombro - MENSAGEM RECEBIDA: 19:22:08"

Muito oportuna tal mensagem, pois eu havia justamente meditado sobre isso mais cedo. Pensei, naquele momento, no quanto tenho perseguido, a meu modo, dados os recursos que possuo, a minha Felicidade que parece, às vezes, estar fugindo de mim por causa de algo que eu faço ou deixo de fazer -  Quem sabe?... Mas, deixando essa questão de lado por agora, o que realmente me levou a pensar nesse texto foi o conselho nele contido, a solução. Diz-se: "um dia voce se distrai e ela pousa em seu ombro". Não me dei por satisfeito e comecei a me indagar: "Se eu for parar de persegui-la, o que farei então para não pensar nela, na Felicidade? O que fazer enquanto espero "distraidamente" que pouse em meu ombro?" Como de costume, nenhuma resposta me foi dada e, mesmo que tivesse sido dada, provavelmente não me convenceria. Não nesse momento. Não agora.

Enfim, nada posso fazer, senão voltar aos meus estudos e, quem sabe, deixar a janela do meu quarto aberta para que, mesmo que com toda essa chuva sobre minha cabeça, uma única borboleta, a minha pequena borboleta de asas grandes e com leves tons de rosa, possa entrar e pousar silenciosamente no meu ombro enquanto estou distraído com minhas letras.

Fonte da imagem:
http://www.depoisdosquinze.com/tag/amor/page/20/

quarta-feira, 20 de abril de 2011

O Enigma do Ovo de Páscoa

Como eu disse no post anterior, "A Caça aos Ovos de Páscoa", ontem foi uma tarde divertida de busca pelo ovos e preparação da caça também. Eu particularmente me diverti com a situação que criei.

Tudo começou na reunião pedagógica, realizada na sexa-feira, quando a coordenadora e os demais presentes sugeriram fazer uma "brincadeira", uma confraternização ou algo assim, em virtude da Páscoa. Dentre algumas sugestões lançadas, a ideia de esconder os ovos de chocolate para que a pessoa pudesse encontrar prevaleceu. Eu confesso que isso não me animou muito por duas razões básicas. A primeira, eu não sou tão fã de chocolate a ponto de comer um ovo inteiro ou mesmo parte dele. O único chocolate que eu como vez ou outra é o Bis. A segunda é que comprar um ovo de chocolate para dar de presente ao meu "amigo secreto" representava uma desequilíbrio no meu controle de despesas para este século. Mesmo assim, não querendo ser um killjoy, embarquei na brincadeira.

Na tentativa de evitar desgostos num momento de alegria, no dia da reunião, estipulou-se um tamanho para os ovos e todos abertamente sugeriram o que gostariam. Como eu disse, eu não sou fã assim de grandes quantidades de chcocolate e praticamente deixei em aberto o meu gosto, salientando somente que teria que ser ao leite. A pessoa que sortei tinha comentado, sem muita animação, que preferia aqueles com recheio de licor ou frutas.

Eu não fazia ideia de que ovo ou marca dar. Por isso, resolvi sair de casa mais cedo para dar uma passadinha nas Lojas Americanas. Ao chegar na loja, perguntei a um funcionário que arrumava alguns ovos na prateleira e ele me indicou um com as características da pessoa que sorteara. Bingo! Tudo que eu queria: chgar, pegar o item, entrar na fila (que não estava longa como de costume), pagar e cair fora. Eu iria dar aula às 14hs.

Ao chegar no trabalho, depois de ter ficado preocupado com a possibilidade de o ovo derreter no meio do caminho sob o calor escaldante de Salvador, coloquei no armário do Michael, a pessoa que eu sorteara, enquanto pensava onde iria coloca-lo definitivamente. Achava muito óbvio e cogitava a possibilidade de animar mais essa busca. Nesse instante, Paulo estava completamente envolvido na preparação do ovo da pessoa que havia sorteado. Isso me deu a ideia de fazer com que Michael saisse à caça de seu chocolate. Peguei um pedaço de papel e comecei a rascunhar um acrônimo com a palavra do local em inglês onde eu esconderia o ovo. Foi quando tive um insight - uma revelação, se preferir: escrever pistas que após decifradas, levariam a outras que, por fim levaria ao local do esconderijo. Rascunhei, digitei e imprimi, depois recortei em retângulos ou tiras e coloquei a primeira pista presa com adesivo na porta do locker do meu sorteado. Ela dizia assim:

To find what Easter Bunny brought to you just follow the tips. Here is the first one: "One, two, three, four, five. That’s where the first clue you’ll find"

(Para encontrar o que o coelhinho da Páscoa trouxe para você, é só seguir as pistas. Eis a primeira: Um, dois, três, quatro ou cinco. É onde a primeira pista você encontrará.")

Mais tarde, tive que tirar de dentro do armário e colocar estampado na porta. Então o flagrei olhando fixamente para a porta tentando decifrar o enigma... eu me acabava de rir. Quando ele entendeu que deveria seguir para uma das salas, que são cinco no total e só uma estava trancada. Lá ele encontrou a segunda pista que dizia assim:

You’re good at following clues, huh? Go for the next one in the RC. That’s your landmark.
299-2-7 / 185-1-18 / 122-1-16 / 51-2-6(Você é bom em encontrar pistas, né? Vá buscar a próxima no RC. Lá está seu ponto de referência - LANDMARK...)

Essa o mandava ir para o RC (Resource Center), uma sala onde os alunos podem acessar a internet e estudar. Quando ele chegou lá, ficou procurando um ponto de referência, que se traduz por landmark. Depois de um tempinho, ele percebeu que Landmark era o nome de um dicionário de capa preta que se encontrava sobre uma das mesas. Quando ele o abriu, encontrou a última pista:

The numbers refer to a page, a column and an entry. Find the entries and you’ll find what the tricky Bunny brought to you. LOL.

(Os números se referem a uma página, uma coluna e um verbete. Encontre os verbetes e você encontrará o que o coelhinho trapaceiro trouxe para você. KKK)

Por fim, os números se referiam aos verbetes teacher, lounge, find, cardboard. Ou seja, "In the Teacher's Lounge, find the cardboard." (Na sala dos professores. Ache a cartolina). Eu havia enfiado o ovo de Páscoa que ele queria, com recheio de licor e cereja, num rolo de cartolina numa estante usada para guardar material que utilizamos nas aulas.

Michael se divertiu muito com a forma criativa de procurar o chocolate, tentando decifrar os enigmas.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Sons da madrugada

São 02h24 da madrugada. Estou sem sono. Poderia dizer que, como de costume, estou ouvindo, atento, os "sons da noite". Os sons emitidos pelos que dormem, os ruídos da casa, da rua, cachorros latindo, vozes etc. parcialmente camuflados pelo barulho do meu ventilador. No entanto, estou de fato escutando o som dos acordes de uma banda indie, surgida nos 80, chamada The Lemonheads. A música é Into Your Arms.

Enquanto a escuto, repetidas vezes (nonstop), minha cabeça viaja no ritmo da batida empolgante e da letra simples. Eventos aparecem diante de mim como um flash. Tudo isso junto e misturado me deu vontade de falar sobre música, sobre coisas que vem acontecendo.

É curioso como a música pode desencadear uma série de emoções nas pessoas. As minhas, nesse instante, são boas. Me sinto bem comigo mesmo, me sinto contente. "Inspirado" seria a melhor de todas as definições. Estou louco para pegar o meu violão Yamaha G-20A e tocar os acordes dessa canção, cantar como se só eu existesse no mundo. E viajar. Como acontece toda vez que toco. Mas ele está com uma das tarrachas quebrabas. Não há como afinar. Não há como tocar.
Arrebatados pelas notas musicais, meus pensamentos voam sem empecilhos, sem barreiras tempo-espaciais, morais ou físicas, voam sem culpa. Esses mesmos pensamentos visitam o meu passado, vasculham o meu presente e esboçam traços de meu futuro. A música é como uma máquina do tempo que me transporta para uma dimensão de possibilidades.

Do meu passado, a música me trouxe o sábado. Me vi parado naquele ponto de ônibus, num dia quente depois do trabalho, enquanto observava o pombo catar suas migalhas próximo à calçada, agitado e faminto. Estava tão ocupado com sua tarefa cotidiana, que parecia não estar atento a mais nada, num local movimentado por pessoas e veículos. Aventurou-se centímetros mais longe da calçada. Obcecado por tantas migalhas espalhadas pelo chão, distraiu-se e não percebeu o ônibus se aproximar dele. Estava tão envolvido em sua coleta que, parecia não haver tempo para ele abrir as asas e alçar voo ou mesmo para pular para o lado seguro da calçada. Eu comecei a sentir uma angústia e, quando vi que o ônibus estava próximo demais, virei meu rosto para não ver o que eu sabia que não seria evitado. Segundos depois, olhei e vi o pombo esmagado, "quebrado" no meio das migalhas. Passei o sábado inteiro e o domingo refletindo sobre o que havia acontecido ao pombo, sobre como aquilo havia mexido comigo, o que me levou a pensar sobre como as coisas podem acontecer por acaso, sobre a brevidade da vida, como não temos controle sobre nada, nem sobre nós mesmo, quiça sobre o meio.

Do meu presente, fui agraciado com a sensação do descanso, a lembrança das férias que estão por vir, embora elas não siginifiquem totalmente "descanso". A música me trouxe ainda meus medos, desilusões, lembrou-me de minhas metas para o agora, estimulou-me, fazia meus átomos vibrar, me lembrava que ainda estou vivo - coisas essas que eventualmente esqueço.

Por fim, lá do meu futuro, a música presentou-me com as expectativas, com a lembrança do meu destino, os sonhos, os desejos... Ela lembrou-me ainda que é da minha vida e todas as implicações dos meus atos, sejam positivos ou negativos, que não posso esquecer. Lembrou-me de que não posso esquecer quem sou, de onde vim, que caminho estou seguindo e para onde quero ir.

A música é realmente uma das mais extraordinárias formas que o homem encontrou para ler o mundo e expressar-se nele, com o poder de libertar e também de aprisionar dentro de si mesmo. Into Your Arms é a música que me inspira nesta madruga afora, mas outras duas também ajudaram a criar essa atmosfera de introspecção e inspiração: Eyes, do grupo Rogue Wave e Jumper, do Third Eye Blind, ambas bandas de rock alternartivo da Califórnia e São Francisco respectivamente.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Estórias de Buzú: "Ô motô, abre aê!"

Às vezes, testemunhamos ou protagonizamos situações inusitadas, estranhas, às vezes hilárias. Como postei anteriormente, os dois repentistas e o baleiro gringo são dois exemplos do dia-a-dia em Salvador. Não sei o que pensam sobre isso, mas em Salvador, no buzú, acontece é coisa. Parecem tão comuns e corriqueiras que a gente nem se dá conta. Vou postar aqui algumas dessas situações somente relacionadas com buzú.


Ô motô, abre !

Tinha pegado um buzú com destino ao Centro. Não estava tão cheio, mas mesmo assim, preferi sentar no fundo, lado direito, na cadeira que ficava bem perto da porta traseira, separada pelo vidro. O curral - espaço entre o torniquete ou catraca e a porta de entrada de passageiros - separava a cadeira do cobrador e o local onde eu havia me acomodado. O ônibus seguia seu trajeto normalmente, parando nos pontos, descendo passageiros e pegando outros. O dia estava perfeito, o clima era bom, ensolarado. Eu estava tranquilo, curtindo a vista da orla e observava a movimentação de pessoas no entra-e-sai do coletivo. Vestia uma camiseta Polo preta, calça jeans e sapatos Kildare marrons. Não eram tão confortáveis quanto um tênis, mas eu gostava de usá-los. Estava indo dar uma volta na cidade.

Sou cinestésico e costumo me movimentar muito, mesmo quando sentado. Geralmente, movimento as mãos e os pés. De vez em quando, eu apoiava meus pés entre o espaço que existia entre o assoalho e a parte inferior da proteção de vidro que separa o acesso à catraca dos assentos no fundo do ônibus. Ficava cutucando o canto da proteção, perto da porta com o bico do sapato com o pé direito. E assim, ia passando o tempo da viagem. Tirava e colocava de volta o pé. A porta abria e fechava a cada parada nos pontos e eu lá, cutucando a porta. A porta abriu mais uma vez. De repente, me distraí e a porta fechou, prendendo o bico do meu sapato. “Tudo bem”, pensei. “Quando a porta abrir, eu retiro o pé!”.

O buzú seguia seu trajeto. O tempo ia passando e a pressão que a porta exercia no bico do sapato ia aumentando. Comecei a me sentir incomodado, mas eu sabia que a porta iria se abrir logo. A pressão sobre os meus dedos foi ficando maior. Sentia o dedão começar a doer. Meu semblante já mudara de um ar tranquilo para um ar preocupado. Foi virtualmente o período mais longo entre um abrir e fechar de portas de todos os tempos dentro daquele coletivo. Eu olhava para o bico do sapato espremido, cujas laterais do emborrachado já haviam deformado. Não aguentei mais. Me dirigi ao cobrador. “Cobrador!”, chamei falando meio baixo. “Dá pra você pedir para o motorista abrir a porta traseira?”. O cobrador usando óculos escuros, manga do uniforme arregaçada, exibindo o braço e uma toalha em volta do pescoço, fez: “Hã?”. Eu repeti: “Tem como você pedir ao motorista para abrir a porta traseira?”. Nesse momento, eu me toquei que o fundo do ônibus não estava vazio e que a cadeira ao lado da minha estava também ocupada. “O que foi?”, pergunta o cobrador. “Rapaz, você pode pedir para o motorista abrir a porta traseira? Meu pé prendeu aqui.”. O cobrador, inclinado para visualizar o que estava acontecendo, virou-se e gritou do fundo do ônibus para o motorista: “Ô motô, abre que o maluco aqui prendeu o pé!”.

Nem olhei para os lados, mas da maneira que ele gritou, qualquer um riria. Logo depois, meu ponto chegou. Levantei e desci, olhando para o sapato cortado nos lados, tentando me convencer que aquilo não havia acontecido de verdade.

domingo, 6 de junho de 2010

Pastilha de menta “buena” e “hermosa”

Um bom vendedor precisa basicamente de duas coisas para ter sucesso: conhecimento e criatividade. Conhecer bem o produto/serviço que está oferecendo a ponto de transmitir confiança e segurança necessária para o cliente é um dos requisitos importantes nesta área. Também saber o que o cliente precisa de antemão e destacar os benefícios do produto/serviço oferecidos a ele, não focando no produto/serviço em si, mas dando ao cliente o que ele terá de vantagens com aquela aquisição. Por fim, saber como cativar o cliente, ser simpático e antencioso para promover um clima descontraído pode fazer toda a diferença. É nessa hora que entra a criatividade, são as estratégias de venda.

Muitas pessoas se destacam na arte de vender não só por sua visão de mercado, mas por suas estratégias diferenciadas. Por exemplo, como é que você acha que Sílvio Santos, o empresário de televisão, se transformou no “homem do báu da felicidade”. O apelido já diz tudo: o homem não vende carnês, eletrodomésticos ou um minuto de fama no complexo televisivo do SBT, ele vende “felicidade”. E isso todo mundo quer, mesmo que seja preciso investir algum dinheiro.

No filme “O Contador de Histórias” (2009), do diretor Luiz Villaça, há uma passagem que mostra a personagem Margherit e o menino Roberto, numa praça onde um aglomerado de gente assiste a um homem vendendo uma caneta que, segundo ele, é a que a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea. O homem fascina os dois personagens e os demais expectadores com o seu jeito inusitado de contar estórias para justificar a venda da “única” caneta que herdara de sua mãe que está doente. Margherit encantada com a estória decide comprar uma e, quando o homem se volta para pegar o troco, o menino vê que ele tem várias dessas canetas e tenta adverti-la quanto à possibilidade de ela estar sendo enganada. Margherit, então, diz a Roberto que fez a compra não porque o homem vendia a caneta, mas porque vendia a estória. Dessa maneira, o vendedor proporcionava aos transeuntes um momento de felicidade, preenchendo um pouco o vazio em suas vidas. Uma boa estratégia, não acha?

Alguns dos melhores vendedores fazem dos produtos ou serviços que oferecem uma espécie de brinde, por assim dizer. O que realmente se vende não são canetas, carnês, livros, perfumes ou doces, vende-se criatividade, uma maneira inovadora de convencer o cliente, uma imagem, fazendo-o se identificar com a “ideia” por trás do produto/serviço. Com efeito, é possível encontrar em todos os ramos vendedores e suas estratégias de venda nada convencionais.

Dificilmente há quem ainda não tenha pegado um “buzú” em Salvador que já não tenha se deparado com os inúmeros vendedores de balas e doces de toda sorte, formalizados ou não, pedintes e prestadores de serviços que aparecem nos coletivos diariamente.

Certa feita, surgiram no coletivo dois repentistas. Eram irmãos gêmeos, um tocava flauta. Inicialmente o flautista brindou os passageiros com “Jesus, Alegria dos Homens” de Johann Sebastian Bach, dentre outras composições, incluindo canções nordestinas. Quando foi a vez do repente, deram um show. Recitaram vários versos sobre vários temas. O coletivo não estava cheio, havia cadeiras vazias, mas todos aplaudiram. Todos. Até eu que não sou dado a essas “distrações” e contribuições em dinheiro, especialmente em coletivos, me rendi ao talento dos “filhos do sertão”, como se intitulavam. Afinal, me proporcianaram naquela viagem um bom momento de entretenimento. Venderam bem.

Por outro lado, há vendedores que erram na mão, exageram na dose ou simplesmente não têm jeito para a coisa mesmo. Alguns não têm noção de onde termina a criatividade e começa o ridículo.

O mais recente episódio, ocorreu na última sexta-feira. Eu estava num ônibus, lendo um livro cujas páginas tomavam toda a minha atenção. De repente, ouvi uma voz com um forte sotaque espanhól, anunciando umas pastilhas. Até aí, tudo bem. Continuei lendo o meu livro. Quando o homem começou a cantarolar “Besame mucho” destacando as tais pastilhas, minha concentração foi pro espaço. Dá uma olhada nessa figura: o vendedor gringo usava calça e sapatos pretos, uma camisa vermelha, um lenço também vermelho à la Bel Marques e tinha um cavanhaque pintado no rosto – o gringo era fake. O ponto alto desse espetáculo risível foi a versão do “rebolation” acompanhada por uma dancinha sem graça, com sotaque “portunhól” – misturado com baianês ainda por cima!

O refrão era assim.: “É de menta, tá, tá / É de menta... / É de menta, tá, tá / É de menta... Pastilha de menta ‘buena’ / Pastilha de menta ‘buena’, ‘buena’. / Pastilha de menta ‘buena’ / Pastilha de menta ‘buena’, ‘buena’.”

Como se já não bastasse, ele ainda completava: “Compre la pastilha! É muy buena, muy hermosa (“hermosa”??), buena para boca, muy buena para a garganta. Usted pode comprar para su hijo, su hija, para namorado, namorada. É muy buena, muy gostosa, muy hermosa (de novo?)...”

Esses vendedores e suas estratégias... Preciso dizer mais alguma coisa?

sábado, 29 de maio de 2010

BEM TE VI!... BEM TE VI!

[English]

"BEM TE VI!... BEM TE VI!"

Esse é o som que costumamos ouvir todas as manhãs aqui em casa. O casal de bem-te-vis que reside num poste de energia elétrica aqui em frente anuncia dessa maneira manhãs recheadas de coisas boas. Pelo menos, é o que diz minha mãe, que fica maravilhada ao vê-los fazendo o nosso portão de ferro desgastado de poleiro. Todas as manhãs, é possível ver um deles no portão. Não sei bem se é a fêmea ou o macho, só sei que estão lá "batendo cartão".

Ultimamente eles andam meio porquinhos, sabe. O poleiro anda sujo. Ah! Obrigado, bem-te-vis por acrescentar mais uma tarefa diária: limpar coco de passarinho...ha ha ha. Adoro!

Às vezes, perco algum tempo sim, quando posso, para observá-los em seu habitat urbano. Me perco acompanhando a rotina do casal, vendo-os alimentar seus filhotes já grandinhos, com as plumas nas cores definitivas do bem-te-vi adulto, voando ao redor do ninho, vigiando-os dos telhados vizinhos e espantando as ameças em potencial: em geral, outras aves. É uma situação muito comum vê-los defender sua prole, atacando os invasores. Eu me divirto com isso porque eles são muito barulhentos e ousados.
O Funcionário da Telefônica
Outro dia, um funcionário da empresa de telefonia precisou subir no poste para fazer a instalação de uma linha. Os bem-te-vis estavam afastados, como de costume pousados nos telhados vizinhos, observando o homem subir. O homem aproveitou para ver os filhotes, enfiando a mão no ninho e retirando um deles. Eram dois. Foi então que pude vê-los pela primeira vez. Até então não era possível porque eu não tinha como subir no poste - e mesmo que tivesse, não subiria só para vê-los, essa é a verdade. Os pais atentos ao que o homem fazia, permaneciam em suas posições, emitindo sons que mais pareciam dizer: "Sai daí! Sai daí!". De repente, o casal de bem-te-vis começou a sobrevoar o funcionário intrometido. Davam voos rasantes sobre a cabeça do homem, gritando e querendo bicá-lo, depois pousavam em um dos fios de alta tensão e recomeçavam as agressivas investidas aéreas. O homem tinha que terminar logo o que viera fazer, porque os pássaros pareciam lhe tirar a atenção. Ora, se o homem se distraísse um momento que fosse, os bem-te-vis vinham e lhe bicavam o cocoruto.

O funcionário demonstrou, contudo, não se importar com os ataques dos bem-te-vis. Ele observava seus movimentos, enquanto fazia seu trabalho, escorado no poste, mexendo nos fios telefônicos, bem próximo ao ninho. Pela maneira que ele pegou os filhotes, com que lidava com os pássaros voando ao seu redor, parecia que ele também era um admirador daquelas pequenas aves. O homem terminou seu serviço, desceu do posto e despediu-se deles. com afeto. Os pais dedicados e protetores voltaram ao ninho para ver se tudo estava bem com os filhotes.
O Gato
Sempre tivemos como vizinhos os tais bem-te-vis, mas eles nunca viveram tão perto assim. De uns meses para cá, eles se estabeleceram definitivamente no poste, no telhado da casa da vizinha e em outros pontos mais próximos. Sempre me brindando com cenas, no mínimo engraçadas.

Na semana passada, eu tinha acabado de acordar. Levantei, me espreguicei e, como de costume, abri a janela para ver a luz do sol. Era um dia agradável, devo acrescentar. Somente se podia ouvir os cânticos entoados pelos passarinhos: rolinhas, assanhaços e, claro, bem-te-vis.

O estado de transe em que eu me encontrava foi logo interrompido pelas risadas da vizinha da casa da frente, lá do alto de sua varanda. Ela se acabava de rir. Parecia achar graça de algo que acontecia lá em baixo. Era um gato.

Ele era grande, tinha o pelo tingido de preto nas costas e nas patas dianteiras. As patas traseiras e a barriga eram brancas. Tinha uma cara enorme, redonda. Há muito tempo não apareciam gatos por essas bandas. Ele parecia assustado.

A moça olhava atentamente na direção do bichano, se divertindo com a cena e aquilo tinha me despertado. O gato se movia furtivamente, se afastando aos poucos da frente de nossas casas. A moça continuava rindo da varanda, enquanto aguardava alguma coisa. Eu, da abertura quadrada de minha janela, tentava identificar do que tudo isso se tratava. De súbito a moça grita, "Lá vem!". E eu fui procurar o que estava vindo. Não via nada.

"Eita!", exclamou. Quando me virei para ver o gato, o coitado estava agachado, colado no chão, com a mesma cara de assustado. A razão? Advinha: os bem-te-vis! Eles estavam enxotando o felino. À medida que ele se deslocava, os pássaros desciam sobre ele, com seus voos rasantes, kamikases, quase tirando um pedaço de seu couro. Comecei a rir.

"Que passarinhos ousados!", falei para mim mesmo. Esse comportamento natural das avezinhas fez o meu dia. Não nego que desejava ter visto o gato levando umas boas bicadas, mas enfim ele conseguiu se livrar dos danadinhos. Fazer o quê?

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Nonsense Dream

Numa noite de outubro de 2008, eu estava deitado na cama, estudando. De repente, acabei adormecendo. Depois de um tempo, percebi um rebuliço pela casa e fui ver: minha família se preparava para sair.
Embora houvesse muito barulho na casa, meu sobrinho de nove anos que dormia tranquilamente no quarto ao lado. Como eu que não queria sair, resolvi voltar para a cama. Porém, eu já não conseguia mais dormir. Fiquei então rondando pela casa, já que também estava sem paciência para estudar.
“Vou ver o que tem na televisão”, pensei. Sentei no chão da sala para assistir a um filme que passava no “Corujão” e lá acabei adormecendo novamente. O chão estava frio, mas mesmo assim, deitei. A temperatura me fez recordar um hábito que eu tinha quando criança: deitar após o almoço num pequeno espaço entre a porta que dava acesso ao quintal da casa.
Entre um cochilo e outro, percebi que estava do lado de fora da casa. Não me pergunte como. Até hoje estou tentando descobrir. Seria sonambulismo? Sei lá, pode ser. Meu sobrinho que estava de pé diante de mim, me observava – “Ele não estava dormindo?”, pensei. A corrente de ar frio fez logo efeito e senti aquela irritação no nariz, aquela sensação de entupimento. A sensação era muito incômoda e por isso, eu comecei a pressionar o dedo contra a narina para tentar desentupí-lo.
Estranhamente, uma bolha começou a se formar. Crescendo... crescendo... E logo se desprendeu do meu nariz. Era tão grande que media da cabeça à barriga do meu sobrinho. A bolha então seguiu, deslocada pelo vento, até parar diante dos olhos atentos do menino e estourar...POP! O rosto dele ficou todo melecado. Coitado.
Diante dessa situação inusitada, eu não aguentei e começei a rir incontrolavelmente. Acordei com minhas próprias gargalhadas. Que sonho!
No fim de tudo isso, me lembrei de uma cena em que o personagem Seth (Nicholas Cage), anjo da guarda aspirante a ser humano, no filme City of Angels do diretor Brad Silberling, explica à médica porque os seres humanos choram:
“Maybe emotion becomes so intense your body just can’t contain it. Your mind and your feelings become too powerful your body weeps”. - A tradução: Talvez a emoção se torne tão intensa que seu corpo não consegue contê-la. Sua mente e seus sentimentos se tornam fortes demais que seu corpo chora…

Bom, nesse caso, foram os risos.